O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) Agroecológico representa mais do que uma nova oportunidade de comercialização para agricultores de Montenegro. Para as 11 famílias selecionadas para participar da iniciativa, o projeto simboliza a possibilidade de produzir com mais qualidade, ampliar conhecimentos técnicos, diversificar culturas e garantir renda com responsabilidade ambiental.
Montenegro é um dos cinco municípios gaúchos escolhidos para integrar o projeto, que pretende ampliar a oferta de alimentos agroecológicos para a merenda escolar e servir de modelo para políticas públicas em todo o país. Com duração prevista de quatro anos, a iniciativa reúne poder público, instituições de pesquisa e organizações ligadas à alimentação saudável para fortalecer a agricultura familiar e aproximar a produção local das escolas.
Segundo o engenheiro agrônomo Felipe Kayser Lampert, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural, o diferencial do programa está no acompanhamento técnico oferecido às famílias. “Não se trata apenas de produzir para a merenda escolar. O objetivo é construir sistemas produtivos mais sustentáveis, reduzir custos, melhorar a qualidade dos alimentos e tornar as propriedades economicamente mais fortes no longo prazo”, destaca.
Entre as histórias que ilustram essa transformação está a de Caroline Cattermann. Depois de mais de oito anos trabalhando na área da contabilidade, ela decidiu mudar completamente de vida após conhecer a agroecologia em um curso da Emater, em 2017. Desde 2021 dedica-se integralmente à produção de alimentos livres de agrotóxicos.
Hoje cultiva folhas, verduras, frutas, aipim e até flores comestíveis, sempre associando a produção de alimentos à recuperação da biodiversidade. Para Caroline, o PNAE Agroecológico representa uma oportunidade de ampliar mercados, investir em equipamentos e aperfeiçoar técnicas de produção, além de incentivar o plantio de árvores nativas e fortalecer a conservação ambiental.

Recomeço depois da doença
Na propriedade de Fernanda Fraga Prade e de sua mãe, Clariza Andrioli Fraga, o projeto chega em um momento especial. A família precisou interromper a produção de hortifrúti por causa de problemas de saúde, mas agora retoma as atividades apostando em canteiros elevados e no cultivo sem agrotóxicos.
Atualmente fornecem feijão, beterraba e repolho para a merenda escolar e já planejam ampliar a variedade de verduras e legumes. O próximo passo é ainda mais ambicioso: instalar uma agroindústria de alimentos minimamente processados. Para elas, o acompanhamento técnico oferecido pelo programa representa segurança para investir novamente no campo.
A experiência que virou compromisso
Outro exemplo vem da família formada por Rosa Elaine Garcia e José Augusto Bagatini. A trajetória começou com a produção convencional de melancia, em 2000. Sete anos depois iniciaram a transição para a agroecologia. Em 2011, José sofreu uma intoxicação provocada pela deriva do herbicida 2,4-D aplicado em uma propriedade vizinha — episódio que reforçou a convicção de seguir produzindo alimentos sem agrotóxicos.
Certificados como produtores orgânicos há um ano, eles veem no PNAE Agroecológico uma forma de consolidar uma agricultura segura para quem produz, para quem consome e para o meio ambiente. O entusiasmo também chega à nova geração: a filha Ana Helena, de apenas oito anos, já diz que quer ser “médica de plantas”.

O retorno dos jovens ao interior
A sucessão familiar também aparece na história de Carlos Ernesto Koch e do filho Arthur Ernesto Koch. Filho de agricultores, Carlos sempre esteve ligado ao campo, conciliando a produção de melancia, silvicultura e pecuária de corte. Apesar de ser formado em Contabilidade, nunca abandonou a atividade rural.
Agora Carlos acompanha a formação do filho Arthur, que conclui neste ano o curso da Escola Família Agrícola da Serra. A expectativa da família é utilizar o projeto para aprender novas técnicas de cultivo, produzir melão e pepino para abastecer o PNAE, reduzir o uso de inseticidas e aumentar a rentabilidade da propriedade por meio da diversificação da produção.

Um mesmo objetivo
Embora as histórias sejam diferentes, os objetivos convergem. Há quem pretenda investir em agroindústrias, ampliar a diversidade de cultivos, melhorar o solo, incorporar novas tecnologias ou reduzir o uso de defensivos agrícolas. Em comum, todas as famílias enxergam no PNAE Agroecológico uma oportunidade de produzir alimentos mais saudáveis, agregar valor ao trabalho no campo e garantir maior estabilidade econômica.
Para o secretário municipal de Desenvolvimento Rural, Vlademir Ramos Gonzaga, o projeto também fortalece a relação entre cidade e interior. “Quando a escola compra alimentos produzidos por agricultores do próprio município, todos ganham”, afirma. “As crianças recebem produtos mais frescos e saudáveis, enquanto os produtores têm mercado, renda e incentivo para investir em sistemas cada vez mais sustentáveis. É um ciclo que beneficia toda a comunidade”, conclui.